http://folhadecapa.wordpress.com/2011/07/14/documentario-olhos-azuis/
Não basta não termos preconceitos se nosso silêncio é cúmplice
Olhos Azuis (Blue Eyes)
Documentário
93 minutos, 1996
De Jane Elliot , EUA
Essa experiência começou quando Jane Elliot ainda ensinava crianças de terceira série em uma escola cristã branca nos Estados Unidos, em 1968. Para faze-las refletir sobre a condição de ser descriminado pela sociedade por motivos de cor, Elliot então, designou os olhos castanhos (de seus alunos) como motivo para a inferioridade delas em relação à seus colegas de sala, de olhos azuis. Esta experiência significantemente afetou a vida destas crianças, tornando-lhes cidadãos cientes do sofrimento à que os negros são submetidos diariamente, pelo preconceito.
No entanto, para a professora, as consequências foram devastadoras: seus pais, que então tinham um restaurante, perderam totalmente seu público e sua condição de sustento, os filhos de Elliot apanhavam na escola, por sua mãe ser “amante dos negros”, e recebeu entre 500 e 600 cartas , algumas obscenas, que repudiava “uma professora que defenda negros”, de modo que foi forçada a não lecionar mais.
Elliot, no entanto, continuou defendendo teses e promovendo workshops com adultos, fazendo-os sentir na pele, por 2:30 hr, o que um negro sofre a vida toda. Alguns choram, outros se indignam. Os registros são incríveis, vale a pena ver, questionando-se sobre de que modo você age com essa situação, se temos preconceitos ou não, se os escondemos, porque os escondemos e que políticas afirmativas podemos defender para a diminuição do preconceito de raça, credo e sexo entre as futuras gerações.
A continuação desta primeira parte se encontra em sequência no Youtube.
Cotas para negros:
Imagine um homem branco (o sistema), ele dá um chute e quebra a perna de um homem negro. Agora ordena : “Levante-se!” , obviamente o negro não conseguirá por estar com a perna fraturada. Então, (por um ato de caridade, rs) o branco ajuda o de cor a se levantar. A partir de agora o branco diz: “Você não pode mais reclamar igualdade, pois você não foi capaz de se levantar, foi graças a mim!”. (Segue este raciocínio quem é contra as cotas para negros). Mas é uma grande hipocrisia ! Porque foi o próprio homem branco , na figura do sistema, quem quebrou as pernas dele. De modo que levantando-o e oferecendo-lhe socorros, não estaria fazendo nada além do que deveria. (Assinar a lei de cotas, por exemplo), ou melhor : sequer o sistema deveria de ter quebrado as pernas dos negros, para isso, deveria-se então acabar com o preconceito na cerne. Acho bem difícil. Por muito tempo fui contra as cotas, compreendo muito bem o raciocínio. “Igualdade” , “Apenas agindo com igualdade que se terá igualdade”. Na verdade isso é um grande discurso neoliberal do “faça você mesmo”, “não faz porque é vagabundo”, fingindo desconhecer as estruturas e violências simbólicas* que atuam sobre as diferentes classes sociais, afim de mantê-las desse modo. Eu compreendo, eu não fingia desconhecer essa realidade, eu desconhecia mesmo! Mas, se você parar para ler algumas obras como “A ordem do discurso” , do socióloco Michel Foucault , entre outras. Ou esse próprio documentário, já é um bom ponto de partida. Você que é heterossexual como eu, experimente fazer o que faço, pinte suas unhas, nem precisa ser alguma cor chamativa, preto é suficiente, e sentirá como se sentem as minorias, as descriminações, os olhares tortos, as ‘chamadas de atenção’. Perceberá a desvantagem a qual as classes descriminadas se submetem com o nosso aval. O aval do ‘olhar torto para um muçulmano’, o aval do ‘nojo aos gays’, o aval do ‘MST = vagabundos’ , o aval do desconhecimento, da ignorância.
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